Artigo

A era dos transtornos alimentares

(ou O Ministério da Saúde Mental adverte: levar sua imagem muito a sério pode ser prejudicial à sua paz de espírito)

Celebridade que é celebridade tem que sofrer, ou ter sofrido, de algum tipo de transtorno alimentar. Anorexia, bulimia, drunkorexia, são tantos nomes que é até fácil se perder nesse novo léxico da era da magreza mórbida.

No outro extremo, e não menos preocupante, o mundo está cada vez mais obeso e sofrendo as conseqüências dos excessos característicos do american way of life, que, convenhamos, se tornou o way of life de 80% do mundo. Existe Mc Donald’s kosher, que vende cerveja, que não oferece produtos derivados das vacas indianas sagradas, enfim, é hambúrguer e batata frita para todos os gostos, bolsos e tamanhos de jeans.

Uma breve historinha para boi dormir: meu amigo estava saindo com essa menina que, segundo relatos, passava uns 15 minutos no banheiro do restaurante sempre que ele a levava pra jantar. Minha amiga V. (vamos tentar preservar a identidade dela), que conhecia a moça há algum tempo, comentou “aham, é mesmo, ela é bulímica”. A coisa chegou ao cúmulo do absurdo da flexão lexical: virou um adjetivo: ela É bulímica. Ela não está com bulimia, como eu estou com gripe. É assim que a doença vira uma condição, um modo de vida.

É a evolução da psicose massificada que domina a nossa geração: somos tão obcecados pelo que vemos no espelho que escolhemos ser doentes. O amigo do parágrafo de cima fez o seguinte comentário, pós-relacionamento: “se for para ela vomitar tudo depois, vou parar de levar em restaurante bacana”. Por mais malvadinho que tenha sido, aqui, no conforto do meu anonimato, não consigo tirar a razão dele. Como não conseguiria tirar a razão do Brad Pitt se ele decidisse que não quer mais levar a Angelina pra jantar fora porque ela não come comidas sólidas.

E o paradoxo é tão tremendo que chega a me dar um nó na cabeça: o mundo te manda ser cada vez mais magra, mas está cada vez mais gordo. O que me leva a concluir uma coisa tão somente: perdemos nosso poder de questionamento.

Questionar é uma ferramenta altamente poderosa. Eu quero ter essa aparência ou querem por mim? Eu quero comer esse sanduíche ou fui convencido pela publicidade? Quero e preciso desse produto ou estou agindo impulsivamente? Parece que estamos perdendo gradativamente a habilidade de fazer perguntas extremamente simples para nós mesmos e, consequentemente, contribuindo loucamente para o emburrecimento geral da nação.

Quando você não pergunta, não debate e não explora as suas escolhas, e eu já falei isso antes aqui no blog, você simplesmente permite que alguém faça isso por você. E, acredite, existe alguém que QUER fazer isso por você. Sabe por quê? Porque uma compra desinformada é mais dinheiro no bolso de alguém que lucra com explorando a má relação custo-benefício. Porque um voto desinteressado é mais um degrau escalado para um candidato cujo grau de instrução é “lê e escreve”. Porque mais um quilo perdido facilita a vida do indivíduo que confecciona as roupas que você compra.

Alguém sempre está lucrando, de alguma forma, com a nossa falta de iniciativa e de vontade. Por isso saímos correndo para a academia, para o supermercado, para alguma mega loja e para alguma meta inatingível que não sabemos nem mesmo se realmente a desejamos. Viramos sombras de nós mesmos porque sempre estamos correndo atrás de um algo a mais. Ou de um algo a menos.

Eu NÃO acho que pesar 30 quilos, quando se tem 1,70m, é bonito. E também NÃO acho que pesar 280 é bacana. Mas mais do que isso: eu NÃO acho legal deixarmos que outras pessoas nos convençam do que devermos ser, vestir ou pensar. Vamos fazer um experimento científico? Todos os dias, ao se olhar no espelho e apertar o muffin que vaza na calça jeans, pare e pense: “eu quero mesmo emagrecer mais dois quilos ou eu só preciso trocar de fornecedor de calças?”.

Esse Laboratório adverte: engolir mensagens sem questioná-las pode ser prejudicial à saúde.

Beijos e bom fim de semana!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: