O dia em que a MAC me decepcionou

Confesso que, mais uma vez, estou atrasada no debate. Mas acho que nunca é tarde para reforçar o coro, especialmente quando se trata de uma questão tão delicada quando pertinente.

Obviamente, eu sou uma fã absoluta e declarada de maquiagem. Mais do que isso, adoro observar como essa é uma ferramenta belíssima de expressão e de compreensão estética. Fico ridiculamente feliz quando vejo uma coleção nova, algo que me inspire a criar comigo mesma.

Fiquei muito animada quando li que a MAC lançaria uma coleção em parceria com a Rodarte, uma marca que conheço pouco, mas tinha me causado uma boa impressão. Não vi mais muita coisa sobre o assunto, até que li o artigo que a De Chanel na Laje escreveu. A coleção é mesmo muito bonita. Se não fosse por um detalhe impossível de ser ignorado: ela foi “inspirada” na situação das mulheres de Ciudad Juárez, uma cidade industrial altamente empobrecida e famosa pelo inacreditável número de mulheres que foram, e continuam sendo, estupradas e assassinadas, sem nenhuma resposta relevante da polícia local.

Não bastasse essa completa falta de senso e, convenhamos, de sensibilidade, a campanha é estrelada por uma modelo esquálida, maquiada para parecer um cadáver. Triste. Quando o mundo se esforça para tentar derrubar o conceito ridículo e datado de que beleza é sinônimo de transtorno alimentar, duas das principais marcas em atividade engatam com fé na contramão.

Campanha da MAC em parceria com a Rodarte: desnecessário

Quando a blogosfera crítica se engajou na luta contra a coleção, a MAC justificou-se dizendo que se tratava de uma ação para trazer atenção à situação de Juárez. Causa nobre? Discordo. Pessoalmente, acredito ser uma maneira muito esquisita de tentar jogar luz sobre um tema tão delicado. Não vejo como um esmalte chamado “Auschwitz” ou um batom “Darfur” teriam grande efeito no combate às raízes de um genocídio.

Mas o que realmente me deixa intrigada é ver que, mesmo com uma imensa estrutura de pessoal, as grandes marcas ainda estão longe de estabelecer limites para o seu “processo criativo”. Será que eles realmente não têm um RP com bolas pra falar “gente, má idéia”??

Os produtos

Ainda que a intenção realmente fosse botar holofotes em Juárez, para combater uma situação sobre a qual nem mesmo a ONU ou a Anistia Internacional têm controle, o que claramente não aconteceu, acredito que a MAC e a Rodarte poderiam ter encontrados meios mais sensíveis para fazê-lo.

O resumo da ópera é que a coleção foi cancelada. Acho que essa foi a única demonstração de bom senso nessa conversa toda. É tudo uma questão de perspectiva.

Para quem se interessar, o site da Anistia Internacional tem muitas informações sobre Juárez.

Beijos!

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